elly-ana @ 17:47

Sab, 08/05/10

Passado 594922 mil anos, eu venho postar...

Desculpem a sério, desculpem mesmo. Mas esta fic cada vez está mais difícil de avançar e ultimamente tem me dado para o drama, como esta one-shot...

Outra coisa, eu agradecia se podessem ir a este blog e comentassem, sff  http://diaaoquadrado.blogs.sapo.pt/

Beijinhos, espero que gostem da OS...

E eu não me esqueci de vocês, a minha inspiração é que anda completamente maluca --'


 

A melodia era dada e adaptada a cada toque suave mas profundo nas teclas daquele piano de cauda, a visão e o som que provinha daquele palco eram ilusórias, como se fossem ouvidas e vistas todos os dias, em todos os momentos, mas ao mesmo tempo como senão passa-se de um fantasma, como se tivessem passado anos, séculos.

Os tiros e o barulho dos canhões eram ouvidos do lado de fora da casa de espectáculos, os anos gloriosos, os fantásticos momentos que passaram por aquele teatro eram assassinados aos poucos, o barulho da guerra abafava a música. Podia-se prever que aquele frágil prédio não iria aguentar de pé por muito tempo, mas mesmo assim, aquela figura esbelta vestida com a farda de soldado Alemão, permanecia de olhos fechados, nada o poderia assustar ou derrubar, nada o conseguiria afasta-lo daquele sitio, nem mesmo a 2ª guerra mundial à porta, nem a voz das pessoas a morrer e a gritar de desespero, nem mesmo a destruição de Berlim o assustava, ele sentia-se em paz nada o atormentava ao vê-la, a ela por quem o seu coração batia, por quem ele morria, a ela que lhe dava vitalidade e alegria, que agora não passava de uma memória. Aquelas memória permaneciam vivas na sua memória, os aplausos do público, a sua voz que enchia o mundo, que os transmitia para outra dimensão, a sua beleza que iluminava tudo, ele vivia tudo de novo, estava a vê-la a sorrir para si, dentro daquele vestido branco que ainda lhe dava mais brilho, em cima do piano, quando tinha que transmitir uma imagem mais sedutora, se é que fosse possível. A sua doce voz, de onde tinha ouvido uma única vez, essa vez que para ele tinha valido a pena viver, a sua voz a dizer que o amava.

Mas ela tinha-o abandonado para sempre, sem dizer adeus, sem dizer o motivo, a ele que respirava por ela.

Aquele teatro era tudo o que restava da sua recordação, de tudo o que ela era, o mesmo teatro que estava a ser destruído naquele momento, as paredes começavam a ceder, o pó pairava no ar, o tecto estava a rachar, mas ele...ele não se mexia, estava prestes a ser esmagado pelo edifício, mas não se importava, não tinha medo da morte, tudo o que lhe dava esperança e garra tinha desaparecido, tinha fugido por entre os seus braços como se uma varinha encantada lhe tivesse lançado um feitiço.

Uma coluna cedeu, deixando a parte de trás ruir completamente, faltava pouco até ele estar subterrado, agora que a parte caída estava a fazer força para o tecto desabar e assim aconteceu, as paredes laterais não aguentaram os bombardeamentos sendo destruídas numa fracção de segundos.

As tropas russas dominavam a guerra, enquanto que a Alemanha perdia a olhos vistos, tal como aquele jovem, que estava na guerra com a esperança de ter uma morte rápida, mas mesmo assim ele encontrava-se ali, embora morto por dentro. Os seus cabelos esvoaçavam com o vento provindo do desabamento, caminha em direcção ao palco, não tinha quaisquer emoções, não tremia de medo, não chorava de pânico... finalmente abriu os olhos, dando ao mundo a oportunidade de ver aquele castanho avelã, embora sem o seu brilho, uma última vez, a cada passo que dava a morte escapava-lhe por centímetros, como se uma força superior não permiti-se que nada o magoa-se. Subiu as escadas do palco, vendo uma ultima vez o fosso onde a orquestra tocava as grandes óperas.

O seu piano permanecia intacto, coberto por um velho trapo, desviou aquele tecido indigno de proteger algo tão valioso. Tocou uma ultima vez nas frágeis teclas, fechou novamente os olhos, como se a visse novamente em frente a si e a cantar para si, apenas para si, a quem ele uma vez disse que amava, os seus dedos não estavam presos, dançavam com uma liberdade enorme sobre os pedaços trabalhados de madeira.

A voz dela emancipava na sua alma, sentia-se no paraíso, no seu paraíso, será que o paraíso era aquilo ? Ouvir a sua doce voz para a eternidade? Se era isso então ele não queria voltar a viver.

- Bill...- a sua voz calma chamava pelo dono daquele pequeno nome- Bill, sai daí.- aquela calma voz tentava dissuadi-lo da sua trágica morte, mas a vontade de Bill era a contrária, ficar para sempre naquele espaço, ficar para sempre a ouvi-la. Por isso, ele tocava cada vez mais forte, cada vez com mais convicção- Por favor, tens que sair daí.- ela implorava para que ele saísse, mas em vão. O rapaz finalmente mostrou provas que realmente vivia, de que ainda pertencia a este mundo, uma lágrima soltou-se do seu coração, não por medo, não por pânico, mas sim por lhe estar a recusar um pedido, o maior e o mais difícil pedido que ela lhe havia feito.

O soldado sentiu a sua lágrima a ser levada do seu rosto, como se alguém a tivesse levado.

- Bill, eu estou aqui, por favor, por mim, sai daí.- Bill tinha tanto de belo como de teimoso, e estava decidido que sem ela não iria viver.

- Não.- os seus dedos finalmente livraram o teclado passando a puxar o seu cabelo para trás.

- Por favor, se ficares aqui, eu também vou ficar.- a voz dissipou-se, passando a ser pronunciada mais baixa, como se ele senti-se todos os seus pelos do pescoço arrepiar-se - Porque tu és a minha vida.

Bill apercebeu-se de que quem estava a ouvir não era uma ilusão, mas sim a verdadeira, pegou na sua mão e passou-a pelo rosto indo até aos lábios onde a beijou com dedicação, até mesmo com algum desespero.

- Nina.- ele suspirou, até agora ainda não acreditava no que sentia.

- Eu estou contigo, sempre.- agarrou o rosto de Bill, obrigando-o a abrir os olhos, que brilhavam tanto ou mais que da primeira vez que se viram - Temos que sair. - concluiu a ver a sala de espectáculos a ruir por todos os lados.

- Como estives-te sempre comigo ?- aquela pergunta ecoava na cabeça dos dois, Nina tentava salvar a vida dele, mas Bill não se mexia - Como? Eu estive na guerra, eu pensava que não me amavas mais.- baixou a cabeça, a mesma que voltou a ser erguida por Nina.

- Eu acompanhei-te sempre, não só em pensamento, mas fisicamente, no dia em que foste chamado, eu segui-te sempre, nunca te deixei sozinho.- Bill olhou-a uma vez mais, não acreditava que ela estava sempre tão perto de si, que aquele ser estava exposta aos piores perigos da humanidade.

-Tu és maluca.- foi as únicas palavras que saíram da sua boca antes de um sorriso idiota aparecer.

- Um maluca morta senão sairmos daqui.- Bill pegou na mão dela, todas as saídas que conhecia estavam bloqueadas, como iriam sair daquele cerco de escombros, antes que o tecto desaba-se sobre as suas cabeças.

- Como me encontras-te ?- perguntava-lhe enquanto corriam pelas antigas salas dos bastidores, aí Bill lembrou-se das pequenas janelas que as salas tinham.

- Não era difícil saber o sítio onde te encontravas, era o mesmo que me chamava.- entraram numa das poucas salas que ainda estavam em pé. - A janela? A janela tem grades do lado de fora.- essa era a realidade, ambos tinham de arranjar uma solução.

- Ajuda-me a encontrar algo que sirva de martelo, assim partimos a parede de lado da janela, e como está tudo degradado é muito mais fácil.- os bombardeamentos tinham parado de se ouvir à algum tempo, o que queria dizer que nenhuma casa deveria estar de pé.

- Isto serve?- Nina apareceu com uma peça que outrora servira de maçaneta das grandes portas, Bill pegou numa e ela martelava do outro lado, a cada estocada as paredes cediam cada vez mais. - Não vai aguentar muito tempo!

- Calma... está ...quase.- uma ultima martelada e os ferros saíram deixando uma passagem para o mundo exterior.- Vais ter que ser rápida, isto pode não aguentar.

- E tu?- Nina agarrou o pescoço de Bill e chorou, como se fosse a ultima vez - Eu amo-te.- Bill beijou suavemente os seus delineados lábios.

- Eu também te amo. Mas agora tens que sair.- ela acenou com a cabeça e Bill ajudou-a a subir e a empoleirar-se na pequena abertura, Nina foi rápida, virando logo de posição e dando as suas mãos como ajuda para Bill subir, o telhado começou a ceder de vez. Bill agarrou os braços de Nina e conseguiu empoleirar-se na janela, mas um pé cedeu deixando-o outra vez com metade do corpo dentro do edifício.

- Bill, rápido.

- Larga-me, senão vais ser puxada de novo para dentro.- as telhas caiam à beira de Nina, que se recusava a sair dali. - Nina, sai daqui, por favor.- ela acenava negativamente enquanto chorava por medo que ele não consegui-se sair de lá de dentro.

- Não, faz força.- Nina fazia força para o tentar tirar dali, mas Bill era bem mais pesado que ela, e se ela fizesse força, Nina cairia dentro do teatro novamente.

- Tens de me largar.- a rapariga cada vez chorava mais, não conseguia pensar.

- Vais ter que ser rápido, ouviste bem ?

- Não, se o fizeres corremos o risco de ficar aqui os dois.- a ideia que Bill já havia descoberto e pensado antes, era de Nina dar um pontapé, na parede ao lado, fazendo com que Bill tivesse mais espaço para sair, mas ao fazer isso o edifício ruiria de uma vez.

- E então, ficamos sempre juntos, vivos ou mortos. - Nina mostrou o seu sorriso luminoso com madeixas dos seus cabelos cor de mel sobre o seu rosto um pouco enfarruscado, Bill sorriu-lhe.

- Se sairmos daqui quero que cases comigo que venhas comigo para o campo.- a mulher com cara de menina sorriu uma vez mais antes de bater com força com aquelas botas da guerra na parede que ainda se mantinha de pé, deixando que esta caísse e com toda a sua força puxou Bill para a luz, o rapaz levantou-se o mais rápido que conseguiu arrastou-a antes que tudo desaba-se deram um ultimo salto pelas suas vidas e caíram com os seus lábios unidos e mãos entrelaçadas na rua principal e deserta de Berlim.



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